Conteúdo produzido por Ana Patrícia Neiva e Kátia Vasconcellos, do time de Pesquisa & Desenvolvimento da RHOPEN.
“A desigualdade não termina quando nasce uma boa ideia.”
O empreendedorismo social é frequentemente apresentado como uma alternativa inovadora para enfrentar problemas estruturais como pobreza, desigualdade, racismo e degradação ambiental. Nesse discurso, empreender parece estar ao alcance de todos — bastaria uma boa ideia, esforço e dedicação.
Mas o que acontece quando olhamos para quem, de fato, consegue empreender com impacto no Brasil?
Quem acessa recursos, visibilidade, redes de apoio?
E quem precisa enfrentar camadas extras de resistência para ocupar esse mesmo espaço?
Neste artigo, propomos uma reflexão sobre os desafios enfrentados por mulheres — especialmente mulheres negras, periféricas, com deficiência e LGBTQIAPN+ — no campo do empreendedorismo social. Apesar de estarem à frente de muitas das soluções mais transformadoras em seus territórios, essas mulheres seguem pouco representadas em decisões estratégicas, editais de financiamento e espaços de reconhecimento.
Ao analisarmos essa desigualdade, entendemos que ela não é exceção, mas sintoma de estruturas persistentes de gênero, classe e raça no mundo do trabalho e da inovação social.
Você vai ver:
ToggleUm retrato do empreendedorismo social no Brasil
Segundo pesquia do Sebrae de 2024, as mulheres representam 46,8% do total de empreendedores no Brasil. Esse número marca uma recuperação significativa após quatro anos de queda na participação feminina no empreendedorismo. Isso por si só já revela um dado contraintuitivo: mesmo com menor acesso a crédito, a redes e a formação, elas empreendem — e empreendem com propósito.
Contudo, os números também revelam contradições:
Mulheres lideram mais negócios de impacto, mas estão menos presentes nos negócios que recebem investimento de risco.
O relatório do We-Fi (Women Entrepreneurs Finance Initiative), publicado em 2022, destaca que os homens são 36% mais propensos a ter expectativas de alto crescimento em seus negócios, o que pode influenciar na captação de recursos. Além disso, o relatório “Blended Finance for Gender Equality and the Empowerment of Women and Girls” da OCDE, também de 2022, aponta que startups lideradas por mulheres receberam apenas 2,3% do financiamento de capital de risco em 2020, uma queda de 0,5% em relação ao ano anterior.
Esses dados podem revelar uma lógica que não é nova: a inovação só é reconhecida como tal quando nasce de determinados lugares e corpos. Há um viés que pode associar liderança, estratégia e escala a perfis masculinos e brancos, enquanto associa mulheres à intuição, ao cuidado e à atuação local — como se isso não fosse, também, inteligência empreendedora.
Empreender com impacto: entre o ideal e a realidade
Enquanto o discurso sobre impacto social enaltece a colaboração, a empatia e o propósito, na prática, muitas mulheres empreendem não por vocação, mas por urgência. O negócio nasce do enfrentamento direto a problemas sociais vividos na pele — ausência de serviços públicos, violência doméstica, desemprego e exclusão educacional.
Como afirma a socióloga e ex-ministra Nilma Lino Gomes: “Mulheres negras não estão descobrindo o empreendedorismo agora. Elas sempre empreenderam para resistir.”
Essa frase ajuda a deslocar o olhar: o empreendedorismo social não é novidade nas periferias, nos quilombos, nas comunidades ribeirinhas ou nas áreas urbanas marginalizadas. O que falta é nomear essas práticas como inovação, remunerá-las de forma justa e desenvolver políticas públicas e programas de incentivo que compreendam essas realidades.
Como nos lembra Saskia Sassen, pesquisadora holandesa especializada em globalização e economia urbana: “As mulheres estão inseridas em sistemas econômicos que se aproveitam de seu trabalho não pago e, ao mesmo tempo, as excluem dos centros de poder.”
Isso também se aplica ao campo dos negócios sociais. A atuação de mulheres é amplamente valorizada na retórica, mas pouco acessa o capital necessário para sustentar e escalar seus projetos.
Gênero, interseccionalidade e os desafios invisíveis
Não é possível falar de empreendedorismo feminino sem falar de interseccionalidade, conceito cunhado por Kimberlé Crenshaw. Ele nos ajuda a entender que gênero, raça, classe, sexualidade e território se entrelaçam na forma como oportunidades (ou sua ausência) se distribuem.
Exemplo: enquanto uma mulher branca de classe média pode contar com redes familiares, formação técnica e segurança para se arriscar, uma mulher negra periférica enfrenta dúvidas sobre sua credibilidade, racismo institucional e múltiplas jornadas de cuidado, além da ausência histórica de políticas de fomento ao empreendedorismo popular.
Essas condições estruturais impactam não só o acesso, mas também o formato do empreendimento social. As mulheres tendem a criar negócios com alto impacto comunitário e baixo retorno financeiro imediato, o que dificulta a atração de investidores tradicionais.
Um levantamento feito pelo Sebrae registrou, em 2024, que apenas 6% das mulheres empreendedoras contaram com auxílio de instituições financeiras para abrir seus negócios, enquanto a maioria (78%) iniciou com recursos próprios.
Para além da resistência: caminhos possíveis
Apesar dos obstáculos, há uma potência vital em curso. Mulheres estão transformando territórios, reinventando economias e construindo novas formas de gestão, liderança e solidariedade.
Mas é fundamental que o ecossistema de impacto social (investidores, aceleradoras, consultorias, universidades e políticas públicas) repense suas práticas para realmente acolher a diversidade de experiências. Isso significa:
- Redesenhar editais com critérios menos excludentes
- Ampliar redes de apoio técnico para negócios populares
- Reconhecer saberes comunitários como expertise
- Criar fundos de impacto com recorte de gênero e raça
- E, principalmente, ouvir as histórias que não costumam subir ao palco nos eventos de inovação.
Deslocando o olhar: o que pode sustentar a inovação
Falar sobre empreendedorismo social e gênero é mais do que reconhecer uma desigualdade: é aceitar o desafio de transformar os próprios critérios de valor, inovação e sucesso.
A potência transformadora das mulheres empreendedoras não está apenas na solução que oferecem, mas no percurso que percorrem — muitas vezes sem apoio, sem segurança, mas com coragem e lucidez.
A diretora de P&D e RH do Grupo Rhopen, Kátia Vasconcelos, tem falado sobre o tema em eventos e abre espaços para reflexões importantes: “O futuro que nos venderam foi pensado com base em experiências homogêneas. Mas existem outros futuros sendo criados — nas cozinhas, nas feiras, nas redes informais, nas periferias, nos grupos de mães e nas comunidades. É ali, nas bordas, que pulsa a inovação que realmente importa.” Acesse agora!
Acreditamos que inovar é também reparar, redistribuir e reconhecer. Porque o que muda o mundo não é só quem tem uma boa ideia, mas quem insiste — apesar de tudo.